Estrada de terra no interior de Minas Gerais ao entardecer

Quando se fala nos melhores filmes brasileiros, muita gente ainda imagina sempre o mesmo tipo de história. E, quanto mais produções nacionais diferentes eu vejo, mais percebo como essa ideia é injusta com o nosso cinema.

Tem filme brasileiro que faz rir pela forma de falar e pelos personagens. Tem outro que deixa a gente desconfortável por mostrar situações muito próximas da realidade. Alguns são delicados, outros violentos, outros quase não precisam de diálogo para funcionar.

Por isso, esta seleção de melhores filmes brasileiros não é um ranking definitivo, e sim seis caminhos bem diferentes para entrar no nosso cinema. Para facilitar, cada um vem com uma ficha rápida e o lugar onde assistir hoje.

Central do Brasil: uma história que cresce nos pequenos gestos

Em Central do Brasil, Dora ganha a vida escrevendo cartas para pessoas que passam pela estação ferroviária no Rio de Janeiro. Quando conhece Josué, um menino que procura o pai, os dois acabam seguindo juntos por uma viagem que muda a relação entre eles.

O que mais me chama atenção nesse filme é que a emoção não parece ter pressa. A relação entre Dora e Josué vai mudando aos poucos, em conversas, silêncios e pequenos gestos. É justamente por isso que, quando a história toca, ela não parece forçada.

Também gosto da forma como a viagem mostra diferentes paisagens e pessoas sem transformar o Brasil em simples cenário. Existe uma sensação de deslocamento, solidão e procura que acompanha os dois personagens o tempo todo.

Fernanda Montenegro foi indicada ao Oscar de melhor atriz por esse trabalho. Mas o valor do filme vai muito além do reconhecimento internacional: ele funciona porque faz a gente acompanhar duas pessoas que não parecem precisar uma da outra no começo e perceber como essa relação muda.

Ficha: 1998 · direção de Walter Salles · 1h51 · 12 anos · Netflix

O Auto da Compadecida: um filme que parece falar a nossa língua

Quando penso em um filme brasileiro que consegue ser muito popular sem perder identidade, O Auto da Compadecida é um dos primeiros que me vêm à cabeça.

João Grilo e Chicó vivem tentando escapar da pobreza usando conversa, criatividade e uma quantidade enorme de improviso. A história mistura comédia, religiosidade, cultura nordestina e personagens que parecem maiores do que a própria situação em que estão.

Gosto de como o humor não parece colocado por cima da história: ele nasce do jeito de falar, do medo de Chicó, da esperteza de João Grilo e das contradições de quem aparece pelo caminho.

O filme adapta a peça de Ariano Suassuna, com direção de Guel Arraes. Mas a melhor forma de explicar por que ele continua funcionando talvez seja mais simples: é fácil lembrar das cenas, das frases e da personalidade dos personagens muito tempo depois.

Para quem quer começar pelos melhores filmes brasileiros, mas tem receio de escolher um drama pesado, este é um dos primeiros títulos que eu colocaria na conversa.

Ficha: 2000 · direção de Guel Arraes · 1h44 · 12 anos · Globoplay

Trailer oficial de O Auto da Compadecida · Globo Filmes

Cidade de Deus: um filme que não deixa assistir de forma confortável

Cidade de Deus segue um caminho completamente diferente. Acompanhamos personagens de uma comunidade do Rio de Janeiro ao longo dos anos, enquanto Buscapé tenta encontrar outra possibilidade de vida por meio da fotografia.

É um filme que me prende muito pelo ritmo, mas não é uma experiência leve. A montagem, a câmera próxima dos personagens e a forma como as histórias se cruzam criam uma energia enorme, ao mesmo tempo em que a violência deixa a sensação de que qualquer coisa pode acontecer.

Talvez seja exatamente esse contraste que torne o filme tão difícil de ignorar. A história anda rápido, mas o que ela mostra não passa rápido pela cabeça. É um daqueles filmes em que a linguagem do cinema, sob a direção de Fernando Meirelles, chama tanta atenção quanto a própria história.

Eu não escolheria Cidade de Deus para qualquer noite. É pesado, tem cenas perturbadoras e exige disposição para entrar em uma realidade dura. Mas, quando procuro um filme brasileiro intenso e tecnicamente marcante, ele ocupa um lugar próprio.

Ficha: 2002 · direção de Fernando Meirelles · 2h09 · 18 anos · Netflix e HBO Max

Que Horas Ela Volta? encontra tensão onde quase ninguém levanta a voz

Que Horas Ela Volta? me interessa pela forma como situações aparentemente comuns conseguem dizer tanta coisa.

Val trabalha e mora na casa de uma família de São Paulo. Quando sua filha Jéssica chega para prestar vestibular, ela começa a ocupar espaços e fazer escolhas que a mãe aprendeu, durante anos, a considerar proibidos para alguém na posição delas.

Não precisa acontecer uma grande explosão para a tensão aparecer. Uma mesa, um quarto, uma piscina e até a forma como alguém se serve de alguma coisa passam a ter peso.

A chegada de Jéssica é justamente o que abala a hierarquia social dentro da casa. E o filme acerta porque a crítica não aparece como uma explicação pronta: a gente percebe o desconforto acontecendo nas relações.

É o tipo de filme que termina e me faz continuar pensando em pequenas atitudes que, isoladamente, poderiam parecer banais. Por isso, combina muito com quem gosta de histórias que provocam conversa depois.

Ficha: 2015 · direção de Anna Muylaert · 1h54 · 12 anos · Netflix

Bacurau e a diversidade dos melhores filmes brasileiros

Eu tenho dificuldade de explicar Bacurau sem achar que estou contando demais, e isso já diz bastante sobre a experiência do filme.

A história começa em uma pequena comunidade do sertão, mas aos poucos vai mudando de direção. Suspense, ação, faroeste e elementos de ficção científica aparecem sem que o filme pareça interessado em caber confortavelmente em uma única categoria.

Boa parte do impacto vem da sensação de não saber para onde a narrativa vai. As informações chegam aos poucos, e acho que parte da graça está em entrar sem procurar explicações demais antes.

Bacurau recebeu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2019. O reconhecimento é importante, mas o que fica mesmo é a personalidade do filme: ele pode provocar leituras diferentes e não tenta facilitar tudo para o espectador.

Há violência e um tom provocador. Então não é a melhor escolha para quando quero algo leve. Mas, quando a vontade é assistir a uma produção brasileira estranha, imprevisível e cheia de identidade, é difícil confundi-la com qualquer outra desta lista.

Ficha: 2019 · direção de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles · 2h11 · 16 anos · Netflix

Trailer oficial de Bacurau · Vitrine Filmes

O Menino e o Mundo: quando a imagem fala antes das palavras

Depois de filmes tão diferentes, O Menino e o Mundo fecha a seleção por um caminho que muda completamente o ritmo.

A animação acompanha um menino que deixa sua casa para procurar o pai. Há poucos diálogos, e a história depende muito mais de cores, desenhos, sons e música.

Eu gosto dessa escolha porque ela muda a forma como a gente assiste. Em vez de esperar que os personagens expliquem o mundo, precisamos observar. O traço parece simples no começo, mas vai ganhando outras camadas conforme aparecem cidades, máquinas, trabalho e desigualdade.

O filme chegou à disputa do Oscar de animação, e esse reconhecimento ajuda a lembrar que a animação brasileira também ocupa espaços internacionais importantes. Mas o que o torna especial é outra coisa: uma criança pode acompanhar a aventura visual, enquanto um adulto provavelmente vai enxergar questões que passam por cima da cabeça dos menores.

Ficha: 2014 · direção de Alê Abreu · 1h20 · livre · Prime Video

Trailer oficial de O Menino e o Mundo · Elo Studios

Por onde começar

Se você quer…Comece por
Rir sem perder a identidadeO Auto da Compadecida
Um drama que emociona sem pressaCentral do Brasil
Conflito dentro de casa, sem gritosQue Horas Ela Volta?
Intensidade e ritmo, sabendo que é pesadoCidade de Deus
Algo imprevisível, que mistura gênerosBacurau
Assistir em família, com poucas palavrasO Menino e o Mundo

Para mim, esse é o melhor argumento para quem ainda diz que “não gosta de filme brasileiro”. Talvez não seja uma questão de gostar ou não do cinema nacional. Talvez falte encontrar qual parte dele conversa mais com você.

Se eu estivesse começando hoje, não tentaria escolher “o mais importante” da lista. Começaria pelo que combina com minha curiosidade naquele momento e, a partir dali, deixaria um filme levar ao outro. Porque, no fim, a parte mais interessante de descobrir o cinema brasileiro é perceber que ele não cabe em uma única definição.

Se você gosta justamente de histórias que continuam trabalhando na cabeça depois dos créditos, vale seguir por Filmes para refletir depois.

Onde assistir conferido em 14 de outubro de 2026. Os catálogos podem mudar.